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Sobre o Realistas
O Projecto Realistas dá a conhecer a vida de várias personalidades que se distinguem pela sua dedicação a Portugal e que, entre os seus princípios e convicções, está a defesa da Monarquia Portuguesa. Realistas, portanto.



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ARTES & LETRAS : Mário Mendes Rosa
2011/1/13 14:40:00
ARTES & LETRAS

Mário Mendes Rosa nasceu a 30 de Novembro de 1934 em Relvas, Concelho de Ansião, e desde cedo mostrou grande propensão para a escrita.



Notabilizou-se em Coimbra e na Figueira da Foz como aluno exemplar e dedicado, lendo avidamente os clássicos nacionais. Começa a escrever precocemente em várias publicações estudantis e torna-se um apaixonado do cinema, sendo um dos grandes dinamizadores da cinemateca coimbrã e promotor de várias sessões cinematográficas, sobretudo películas importadas, acções sempre vigiadas de perto pelo regime.


In memoriam
Mário Mendes Rosa
(1934-2011)
entre o amor aos livros e à natureza…


«Vale a pena privarmo-nos do trivial, para vivermos a paz interior e a alegria plena ao deparamos que os nossos valores foram transmitidos…»
MMR

É em Coimbra que toma contacto com as doutrinas integralistas, através do seu amigo Padre Nogueira Gonçalves, ilustre professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Feitos os estudos secundários de forma distinta ingressa em 1958 na Universidade de Salamanca onde concluirá os estudos do Bacharelato de Filosofia e Letras em Outubro de 1961. Por essa época participa em Madrid em várias tertúlias e torna-se amigo de Luís Maria Anson, escritor e jornalista do diário madrileno ABC e contacta com os validos do Conde de Barcelona, a cujo Conselho Privado Anson pertence. Data dessa época a sua projecção no jornalismo, colaborando em vários jornais, designadamente n’ O Debate, para onde passa a enviar de Espanha assíduos textos. O seu amor pelos livros e pela leitura, que cultivava desde criança, leva-o constituir a sua biblioteca privada que, segundo Alçada Baptista, orçava nos finais dos anos 90 em cerca de 50.000 obras, sendo mesmo segundo aquele autor, uma das melhores bibliotecas privativas do país.
Mas é em Salamanca, onde estudava, que toma conhecimento e se sente atraído pelas teses filosóficas do pensador Regis Jolivet que tanto influenciarão o seu pensamento. E como consequência dessa admiração, ruma a França no ano de 1961, matriculando-se na Faculdade de Filosofia da Universidade de Lyon onde leccionava o autor de «Tratado de Filosofia». Rapidamente o discípulo e o mestre encetam uma amizade que se prolongará pela vida fora. Assim que termina a sua licenciatura em Lyon, Mendes Rosa é convidado a leccionar naquela prestigiada faculdade mas uma notícia chegada de Portugal impede-o de aceitar: o seu avô materno, o poeta Carlos Lopes – por quem tinha um afecto extremo - encontrava-se gravemente doente, com risco de vida.
Regressado ao país em 1962 é convidado para leccionar em Cascais no Colégio da Cidadela, onde exercerá o professorado durante alguns anos. Na capital portuguesa toma contacto com os oposicionistas católicos ao regime salazarista tornando-se amigo íntimo do Pároco da Encarnação, Padre Abel Varzim, doutorado pela Universidade de Lovaina, Bélgica, a quem auxilia na sua luta pela causa dos mais pobres e marginalizados. Mas Lisboa não o cativa e concorre a uma vaga de Filosofia no Instituto Vaz Serra de Cernache, em cujo lugar se verá provido. Depois de ensinar por dois anos naquele estabelecimento, recebe uma proposta para leccionar as disciplinas de Francês, Filosofia e História no Liceu da Covilhã e aceita. Entretanto, naquela que pretendia ser uma visita esporádica aos arredores do Fundão conhece Maria Judith das Neves, com quem viria a casar em 1967 e seria a companheira de toda a vida. Acabaria por ficar no pequeno burgo por mais de trinta anos… Do matrimónio nascem quatro filhos: João Manuel, Carlos Miguel, Isabel Judith e Mário José.
Por esse tempo, intensifica a sua actividade jornalística e, a par com o ensino, é nomeado Chefe de Redacção do jornal Beira Baixa, de Castelo Branco, conseguindo um elenco colaborativo de luxo: desde Rolão Preto ao seu amigo Luís Maria Anson, então já membro da Real Academia Española. No limiar da colaboração com a revista madrilena Círculo, é comunicado a Mendes Rosa, por carta assinada pelo próprio Anson (1.04.1968), que a publicação fora «suprimida por la censura» e o jornalista é «multado e preterido por el dictador».
A actividade cívica de Mário Mendes Rosa fica ainda marcada pela adesão a vários movimentos culturais e políticos claramente oposicionistas ao regime ditatorial português, em companhia de Francisco Rolão Preto. Assim, juntamente com Henrique Barrilaro Ruas, Gonçalo Ribeiro Teles, entre outros, faz parte da CEM (Comissão Eleitoral Monárquica), estrutura concertada com as Comissão Democrática Eleitoral (CDE) e a Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD). A CEM encabeçada por Rolão Preto concorria às eleições legislativas de Outubro pelo círculo de Lisboa e fica marcada pela reivindicação «das liberdades públicas», «elegendo como prioridade a abolição da censura e a criação de uma lei que permitisse a livre expressão da imprensa». Rolão Preto solta então a célebre frase «o Estado Novo foi a ruína da Nação».
Membro do directório da Liga Popular Monárquica, Mendes Rosa funda, novamente com Barrilaro, Ribeiro Teles, Luís Coimbra, etc., a Convergência Monárquica e depois a Renovação Portuguesa – que estão na génese do Partido Popular Monárquico.
Em 1970 é chamado pelo Presidente da Câmara Municipal do Fundão, Eng. Manuel Oliveira Matos Sequeira, para organizar a biblioteca do município a partir de escassos volumes dispersos nele existentes. Devido aos seus contactos nos meios culturais, e sem qualquer orçamento, consegue triplicar o número de obras ao mesmo tempo que sensibiliza directores de semanários e diários nacionais para a cedência graciosa de jornais. Rapidamente dota o município de uma biblioteca vasta e apetrechada, ao mesmo tempo que prepara de seu cunho a própria catalogação e fichagem ideográfica, onomástica e didascálica das obras. É logo a seguir designado Director da mesma Biblioteca Municipal do Fundão batendo-se sempre –e até ao fim das suas funções, diga-se – pela melhoria de instalações da mesma.
Em 26 de Abril de 1974 assina, juntamente com nomes como Vaz Serra de Moura e Paiva Pessoa o comunicado oficial da LPM congratulando-se pela «restituição aos cidadãos das liberdades fundamentais», «libertando [Portugal] da opressão em que era mantido».
Abandona entretanto o ensino oficial para aceitar as funções de Conselheiro de Orientação Profissional no Instituto de Emprego da Covilhã (ao tempo Serviço Nacional de Emprego).
Após a Revolução de Abril o novo Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal do Fundão, Costa Júnior, participa a Mário Mendes Rosa o seu apreço pelo trabalho desenvolvido à frente da biblioteca municipal e é recondu-lo no cargo. Em 1979 vê aprovado pelo executivo camarário regulamento interno e estabelece o Serviço de Leitura Domiciliária da Biblioteca, dedicando-se de alma e coração à instituição, adquirindo inclusivamente livros a expensas suas. Para promover aquele espaço cultural estabelece um acordo com a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, no qual seria imprescindível a acção de José de Abreu Barbosa e enceta várias diligências para obter para a mesma biblioteca instalações condignas. Nesse afã, move as suas influências e consegue a cedência das antigas instalações da Caixa Geral de Depósitos no Largo do Município. Embora consciente que era, ainda assim, uma situação provisória o espaço era de longe superior ao das salas esconsas e escuras da Rua Agostinho Fevereiro. Contudo, construir um edifício de raiz para a biblioteca foi sempre o seu desejo e continuou a lutar por esse sonho. Para tal pediu auxílio à Fundação Calouste Gulbenkian que aceitou colaborar e enviou ao Fundão o arquitecto José Sottomayor incumbido por aquela instituição de elaborar o projecto das novas instalações da Biblioteca. Nesse afã se deslocou à urbe com frequência. Contudo, os impasses do município, sucessivamente repetidos, fizeram gorar os planos do director…
Candidato a deputado pelo PPM por diversas vezes nos distritos de Castelo Branco e Guarda, abandona entretanto aquela estrutura partidária, por considerar cumprida a missão política da mesma, que era precisamente «contribuir para a consolidação da democracia».
Provido de rara sensibilidade, espírito cultíssimo, amante da natureza e das práticas quotidianas saudáveis, fará do culto aos livros a tónica da sua vida, continuando sempre e sem quebrantos a dedicar-se à escrita e à colaboração em vários jornais regionais e nacionais, proferindo conferência e intervenções públicas várias. Os estudos camilianos, a História e a Filosofia eram algumas das suas predilecções. A leitura era nele uma necessidade vital, embrenhava-se horas a fio nos livros, como se deles se bastasse totalmente. Frequenta pois alfarrabistas e livrarias, encomenda obras de todo o mundo, está em contacto permanente com os leilões de livreiros internacionais. Recordamos ver na sua secretária a sua habitual lista de títulos, com a mesma epígrafe, inalterável: «Libros de que tengo necesidad». Uma indispensabilidade total e comprovada, os livros.
Contudo, em 1988 Mário Rosa experimenta o maior desgosto da sua vida: o falecimento de seu filho Carlos Miguel, ainda adolescente. É no entanto a partir de 1992 que o seu universo de afectos é dilatado com o nascimento do primeiro de três netos, que seriam o seu enlevo até ao fim da vida.
Durante o período em que dirigiu a Biblioteca Municipal do Fundão organizou diversas sessões culturais e vários ciclos de conferências sobre literatura e poesia, sendo de destacar o evento periódico «Biblioteca em Dinâmica Cultural» (1998-1999) que contou com a presença e o verbo de António Alçada Baptista, Pinharanda Gomes, António Salvado, Barrilaro Ruas, etc.
A partir de 1998 passa a prestar serviços de voluntariado no Hospital do Fundão, mormente na Unidade da Dor.
Ao longo da vida escreve em jornais nacionais como «Expresso» e «Primeiro de Janeiro», mas também no «Diário de Coimbra», «Jornal do Algarve», «A Ordem», «Voz da Figueira», «Consciência Nacional», entre muitos outros.
Aquando da jubilação do Instituto do Emprego e depois da cessação das suas funções à frente da Biblioteca, em 2003, regressa à sua terra natal, sem deixar todavia de colaborar em vários jornais com crónicas e artigos de opinião sobre cultura, literatura, política, arte e sociedade. Ultimamente era colaborador efectivo dos jornais «O Almonda» (Torres Novas), Horizonte (Figueiró) e Notícias de Chaves.
Um dos seus últimos actos no campo literário foi a organização da edição do livro do seu velho amigo Padre Abel Varzim, assinando também o prefácio da obra.
Além do mais, Mário Rosa cria de fé robusta, de forma autêntica e sem alarde, sem comiserações menores ou concessões que não as que impõe o humanismo.
Mário Mendes Rosa conservou até ao fim uma paixão avassaladora pelos livros, cujas lombadas forram as paredes da sua residência: mal há espaço para os móveis, os volumes amontoa-se em pilhas e colunas; templo feito de folhas impressas, entre uma miríade de árvores e plantas no jardim, que tanto amava também. Cuidava dos livros com indizível carinho: limpava, colava, restaurava. Eram eles afinal que lhe proporcionava o maior prazer. Ouvimos-lhe dizer não há muito, por ocasião de uma cirurgia a uma vista: «Se um dia deixar de poder ler, prefiro morrer». Há alguns meses que a vista se lhe vinha deteriorando. Ler era cada vez mais difícil. O coração, fraco e guardando as mazelas de uma vida de lutas, não ajudou muito.
E a 7 de Janeiro de 2011, aos 76 anos de idade, o espírito bom e ilustradíssimo, cerrou os olhos. Os seus livros calam fundo ante a sua memória veneranda.
Requiem in pace!

do mais humilde dos teus admiradores,

Fundão, 8 de Janeiro de 2011



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