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Sobre o Realistas
O Projecto Realistas dá a conhecer a vida de várias personalidades que se distinguem pela sua dedicação a Portugal e que, entre os seus princípios e convicções, está a defesa da Monarquia Portuguesa. Realistas, portanto.



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ARTES & LETRAS : Carolina Michaelis de Vasconcelos
2011/8/14 6:36:47

Carolina Wilhelma Michaëlis de Vasconcelos (Berlim, 15 de Março de 1851 — Porto, 22 de Outubro de 1925)




Ela foi «a fada que a Alemanha nos manda», como se disse após a sua chegada a Portugal. Árdua e apaixonada investigadora da cultura portuguesa, dizia que o problema da «a questão feminina em Portugal e em Espanha é antes de tudo uma questão de instrução». foi a primeira mulher a leccionar numa universidade portuguesa (na Faculdade de Letras de Coimbra), assim como, ao lado de Maria Amália Vaz de Carvalho, foi das primeiras a ser admitida na Academia das Ciências de Lisboa, não sem que alguns sócios de vistas curtas exprimissem o seu desagrado.Foi durante a monarquia, a investigadora agraciada pelo rei D. Carlos ,em 1901,com a insígnia de oficial da Ordem de Santiago da Espada.

Fada boa, mas mulher extraordinária de inteligência, persistência e lucidez. Chamava-se Carolina Michaêlis, nascera em Berlim, a 15 de Março de 1851, e tornou-se legalmente portuguesa pelo casamento com o musicólogo e historiador de arte Joaquim de Vasconcelos, celebrado em 1876. Ela tinha 25 anos e ele 28, mas qualquer deles já chegara muito longe no estudo de diversas expressões da identidade portuguesa. Não se sabe o que tornou a pequena e bela Carolina uma rapariga tão diferente das suas contemporâneas, tão preocupadas com enxovais e bons partidos. Talvez fosse o convívio frequente com um dos irmãos Grimm, que por mais de uma vez lhe terá afagado os cabelos como sonhara fazer às princesas encantadas das suas histórias. Talvez fosse um pai professor universitário, Gustav Michaêlis, que devotara a vida ao estudo da taquigrafia, ortografia e fonética, comunicando à menina o gosto da precisão que depois a caracterizaria vida e obra fora.

O facto é que Carolina não se deu por satisfeita com os conhecimentos adquiridos num colégio feminino de Berlim, frequentado até aos 16 anos. Mas nesses anos, como ela recordaria já em Portugal, «a entrada nas universidades ainda estava rigorosamente vedada às estudiosas do sexo feminino, mesmo em Berlim, minha cidade natal, a metrópole da inteligência, como é costume chamá-la». Carolina tinha a consciência de que essa Alemanha de luminosos vultos intelectuais era a mesma em que a consulesa Buddenbrook (do romance de Thomas Mann) ignorava a situação financeira da família e em que a filha problemática desta, Tonie, planeava casamentos quando ainda brincava com bonecas. O que fazer então? Disfarçar a natureza e vestir-se de homem, como uma lenda incerta diz que Públia Hortênsia de Castro terá feito para frequentar a Universidade de Coimbra? Não.

Carolina Michaèlis optou pela via do auto-didactismo, sem hesitações nem lamentos. Ela sabia exactamente o que procurava para recear as fraquezas da autodisciplina.
A jovem, dirigida pelo linguista Maetzner, entrega-se então ao estudo do árabe, depois das línguas germânicas e eslavas, do sânscrito, das línguas e literaturas semíticas, do provençal, do francês antigo e, por fim, do espanhol, agora sob a coordenação de Goldbeck. A partir do idioma de Cervantes, Carolina passaria rapidamente ao catalão e ao português. A Península Ibérica estava prestes a conquistar esta alemãzinha, contemporânea da guerra franco-prussiana e das primeiras manifestações do pangermanismo.

A sua inteligência e as suas qualidades de trabalho eram notoriamente acima do vulgar Sabendo isso, o seu professor Carlos Goldbeck deu-lhe, aos catorze anos, como trabalho de férias, a tradução do Nuevo Testamento. Carolina, que não dominava o castelhano, perguntou admirada ao professor se não se teria enganado... ao que ele respondeu: "Estude. Estude!" E Carolina estudou, traduziu, fez uma pequena gramática de espanhol e um caderno de significados em francês e italiano.

Em 1872, a filha do professor Michaèlis era já publicamente reconhecida como uma especialista de temas ibéricos, de tal modo que lhe será confiado o cargo de intérprete oficial do Ministério do Interior para os assuntos peninsulares. Com efeito, aos 17 anos já Carolina organizara os comentários para uma edição escolar do Cid de Herder e aos 20 preparara uma nova edição do Romancero del Cid.

O eminente professor Gaston Paris escreveu-lhe uma carta em que lhe perguntava:
"Onde aprendeu aos dezanove anos aquilo que muitos de nós, depois de doze ou quinze anos de trabalho, ainda não conseguiram saber?"
Em Portugal, Teófilo Braga, Alexandre Herculano e Oliveira Martins, entre outros, repararam na erudição daquela jovem alemã tão interessada pela cultura e literatura portuguesas - e trocaram cartas com ela.

Em 1873 surgiu o seu primeiro estudo dedicado a Portugal: numa revista de Berlim, a jovem, então com 22 anos, debruçava-se sobre as novas tendências da vida cultural portuguesa.
Com o entusiasmo próprio da sua juventude, Carolina seguiria por esses anos uma polémica cultural que agitou o nosso país, mas com repercussões no estrangeiro. O jovem estudioso Joaquim de Vasconcelos opunha-se então ao institucional António Feliciano de Castilho, por ocasião de uma tradução do Fausto, de Goethe, assinada por este. Joaquim, profundo conhecedor da língua alemã, uma vez que fizera os seus estudos universitários em Berlim, denunciou com toda a energia essa tradução pouco fiel para com o espírito que lhe quisera dar o seu autor. À medida que a polémica se adensava, multiplicava-se a correspondência entre Carolina Michaèlis e Joaquim de Vasconcelos. Ora, como se sabe, a tecnologia de ponta ainda não encontrou meio mais eficiente de atar almas do que as cartas e o resultado viu-se quando, neste caso, a discussão epistolar do caso Fausto resultou em casamento.

O jovem e literato casal instalou-se no Porto, onde Carolina se consagrou ao País com a mesma ternura dada a esse rapaz que a atraíra, evidentemente, pelos dotes intelectuais, mas, sobretudo, por uma manifesta intransigência ante a falta de precisão e honestidade cultural. No Porto ou em Águas Santas, para onde ia nas férias, esta alemã passou a consagrar todos os seus esforços de investigação ao Portugal a que chamara seu por livre escolha e ampliou consideravelmente os seus horizontes. De filóloga de vastos recursos, Carolina Michaèlis de Vasconcelos passou também a historiadora da literatura portuguesa, etnógrafa e paladina da emancipação da mulher, bem como da evolução das crianças e da defesa do património cultural. Tais preocupações com o passado, presente e futuro de Portugal dão bem conta do grande amor que esta mulher sentia pelo seu país de adopção.
E difícil reduzir a obra de Carolina Michaèlis de Vasconcelos a umas poucas linhas de síntese, tal é a sua diversidade, importância e actualidade. Preocupada com a negligência dos portugueses ante o seu património cultural, edificado e, sobretudo, escrito («E difícil dar uma ideia do enormíssimo desinteresse dos Portugueses pelo seu património, fama e bom nome», escreverá em alemão), ela estudará cancioneiros antigos (como o chamado Cancioneiro de Fernandes Tomás, que lhe ocupará vinte anos da sua vida, e a edição do Cancioneiro da Ajuda).
Outra grande preocupação presente na obra desta alemã para quem Portugal, apesar de todas as honras concedidas, terá sempre uma dívida de gratidão, é pôr em relevo uma tradição lírica algo menosprezada, mas extremamente importante. Para ela, o Camões lírico é tão importante como o épico, apesar de Portugal e o mundo o associarem quase somente a Os Lusíadas.

No âmbito dos estudos camonianos, Carolina começou por traduzir o livro do seu compatriota Wilhelm Storck A Vida e a Obra de Camões, vindo, posteriormente, a publicar diversos estudos sobre este poeta.
Mas não só sobre o autor de «Amor é ferida que dói e não se sente» reflectiu Carolina Michaèlis de Vasconcelos. Gil Vicente, Sá de Miranda, Cristóvão Falcão e Bernardim Ribeiro também mereceram o seu interesse. Em consequência disso mesmo, foram editadas «Notas Vicentinas» (publicadas entre 1912 e 1922 na Revista da Universidade de Coimbra), uma edição fac-similada das obras de Gil Vicente lançada pelo Centro de Estudos Históricos de Madrid e intitulada Autos Portugueses de Gil Vicente y de Ia Escuela Vicentina, a edição das Poesias de Sá de Miranda e um volume de estudos sobre este autor quinhentista. Influenciada pela filosofia do seu compatriota Hegel, Carolina Michaélis de Vasconcelos acredita no espírito dos povos. Assim, surgem os estudos que ela vai dedicar ao «espírito português», caracterizado, segundo escreveu, por um «sentimentalismo brando e bucólico, por um saudosismo melancólico, que a palavra 'saudade' define melhor e mais sucintamente do que qualquer outra, pelo seu proverbial enamoramento, pelo seu morrer de amor.» Assim estão explicados estudos como A Saudade Portuguesa, Algumas Palavras a Respeito dos Púcaros de Portugal e a belíssima nota crítica que escreveu para o livro de Maria da Luz Sobral (sua antiga aluna na Universidade de Coimbra), Contos e Lendas da Nossa Terra.

O amor de Carolina Michaélis de Vasconcelos por Portugal não se expressou somente através desta atenção ao seu (valioso) património. Mulher beneficiada pela vida num meio e num casamento que estimulava a sua realização pessoal, Carolina não deixou, por isso, de observar que nem todas gozavam de tais privilégios. Ao cabo de alguns anos entre as nossas avós, ela concluía que

«a questão feminina em Portugal e em Espanha é antes de tudo uma questão de instrução».

Dessa conclusão à militância feminista, nessa época em que as sufragistas inglesas davam o mote, foi um passo. Ao seu belíssimo estudo A Infanta D. Maria de Portugal e as Suas Damas, no qual se salienta um pequeno grupo de grandes eruditas portuguesas, acrescentar-se-ia a participação activa no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, de que foi presidente honorária.

Mas o ensino do português e as teorias pedagógicas que lhe estão subjacentes também a ocupam. Criada num meio frequentado por Jakob Grimm, Carolina teria de ser uma entusiasta do papel das histórias e fábulas na educação da criança. Na já referida nota crítica ao livro Contos e Lendas da Nossa Terra, ela põe em relevo quanto uma boa história bem contada pode fazer pelas capacidades criativas dos mais pequenos. «E depois de terem ouvido muitas histórias», escreveu, «e repetido a mesma muitas vezes, as crianças bem dotadas, o escol, naturalmente, selecciona aquilo que mais lhe agradou e repete a seu modo. Excelente exercício educativo!» Afligia-a o pungente desconhecimento da psicologia infantil por parte de um ensino retrógrado que reflectia, afinal, o atraso do País e a ausência de leituras adequadas a esses pequenos que na Europa do Norte disporiam do que de mais belo escreveram os Grimm, Hans Christian Andersen ou Lewis Carroll. Mas Carolina Michaélis de Vasconcelos amou Portugal também através dos artistas que partilharam da sua graça e talento. Trindade Coelho foi um deles. Ao autor de In Illo Tempore, serviu Carolina Michaélis de Vasconcelos de estímulo para livros como Autobiografia, Amorinhos e Cartilha do Povo. Como se não bastasse, prefaciou-lhe, com muito carinho, a edição póstuma da já referida Autobiografia e correspondeu-se com ele acerca de temas essencialmente pedagógicos, nomeadamente sobre a liberdade do professor.



Por uma vez, este país de invejas e de ciúmes exacerbados fez justiça. Ainda durante a monarquia, a investigadora foi agraciada pelo rei D. Carlos com a Ordem de Sant'Iago. Com a instauração do regime republicano (logo em 1911), foi a primeira mulher a leccionar numa universidade portuguesa (na Faculdade de Letras de Coimbra), assim como, ao lado de Maria Amália Vaz de Carvalho, foi das primeiras a ser admitida na Academia das Ciências de Lisboa, não sem que alguns sócios de vistas curtas exprimissem o seu desagrado.

Ao morrer, em 16 de Novembro de 1925, na sua casa do Porto, Carolina Michaélis de Vasconcelos tornara-se uma portuguesa autêntica



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